Dr. Emerson Alves Gimenez – Reumatologista em São Paulo

lúpus induzido por imunobiológicos

Lúpus induzido por imunobiológicos


O lúpus induzido por imunobiológicos é raro, mas precisa ser reconhecido precocemente.
Atualmente, com o uso cada vez mais amplo de imunobiológicos na reumatologia, gastroenterologia e dermatologia, situações como essa deixaram de ser meras curiosidades acadêmicas e passaram a fazer parte do dia a dia do consultório. Conforme observo na prática clínica, todo reumatologista experiente acaba se deparando, ao menos uma vez, com pacientes que desenvolvem manifestações autoimunes compatíveis com um quadro lúpus-like após o início dessas terapias.

Esse tema foi recentemente revisitado em artigos científicos e revisões narrativas, além de discussões clínicas aprofundadas publicadas no Medscape e em periódicos de reumatologia, reforçando pontos importantes que hoje estão mais consolidados do que há alguns anos. Portanto, este texto tem como objetivo oferecer um overview prático, atualizado e aplicável à vida real, exatamente como organizo meu raciocínio no consultório.


Dr Emerson Gimenez

Dr. Emerson Gimenez é especialista em Reumatologia formado na Universidade Federal de São Paulo e titulado desde 2006.


Quase 20 anos de experiência no tratamento de diversas condições reumatológicas e suas eventuais complicações.


Para ver minha avaliação e mais depoimentos de pacientes sobre meu trabalho, te convido a conhecer meu perfil no Google, clicando aqui.


1. Conceitos fundamentais: o que é “lúpus induzido por biológico”?

Primeiramente, é essencial esclarecer que o termo “lúpus induzido por imunobiológicos” não descreve uma entidade única e homogênea. Na prática clínica, encontramos três cenários distintos, que frequentemente se sobrepõem e confundem o raciocínio diagnóstico.

Se você quiser saber mais sobre o lúpus eritematoso sistêmico clássico, te convido a ler este excelente e completo artigo que escrevi clicando aqui.

1.1 Autoanticorpos induzidos, sem doença clínica

Anti-TNF, sobretudo, induzem com frequência a formação de ANA e anti-dsDNA. Entretanto, é fundamental reforçar: autoanticorpos isolados não significam lúpus.
Esse fenômeno é amplamente descrito na literatura e não deve, por si só, motivar suspensão de tratamento ou investigação excessiva. Aliás, rastrear ANA seriado em pacientes assintomáticos é um erro comum e pouco útil, pois a soroconversão é frequente e não prediz doença clínica.

1.2 Síndrome lúpus-like induzida por anti-TNF (ATIL)

Aqui estamos diante do quadro mais clássico e clinicamente relevante. O paciente desenvolve manifestações compatíveis com lúpus — como rash, artralgias, serosite ou febre — associadas a autoanticorpos e a uma relação temporal clara com o início do biológico, com melhora após sua suspensão.
Esse é o cenário que exige maior atenção do reumatologista, pois o reconhecimento precoce muda completamente a evolução.

1.3 Desmascaramento de LES verdadeiro

Este é, sem dúvida, a grande “pegadinha” do consultório. O paciente já tinha predisposição imunológica e o biológico atua como gatilho, precipitando um LES que não necessariamente regride após a suspensão da droga.
Nesses casos, a evolução clínica, a sorologia e o acometimento de órgãos ajudam a diferenciar um lúpus-like verdadeiro de um LES idiopático desmascarado.


2. Quais imunobiológicos estão mais envolvidos?

2.1 Anti-TNF: os principais protagonistas

Infliximabe, adalimumabe, etanercepte, golimumabe e certolizumabetodos já foram associados a lúpus-like. Embora o risco absoluto seja baixo, eles continuam sendo os “campeões” dessa complicação.

Em algumas coortes, especialmente em pacientes com doença inflamatória intestinal, a incidência reportada é maior do que se imaginava inicialmente no pós-marketing. Ademais, infliximabe parece ter incidência discretamente maior do que adalimumabe em algumas séries, embora isso varie conforme o desenho do estudo.

2.2 Outros biológicos: raros, mas possíveis

Inibidores de IL-17, como o secuquinumabe, já tiveram relatos de lúpus cutâneo e, rarissimamente, até envolvimento renal. Para outras classes, o sinal é muito mais fraco e geralmente baseado em relatos de caso, mas o reumatologista deve manter o radar ligado.


3. Fenótipo clínico típico do ATIL

De modo geral, o lúpus induzido por imunobiológicos (anti-TNF) tende a ser mais leve do que o LES idiopático. Predominam:

  • Manifestações cutâneas: rash, fotossensibilidade, padrões subagudos ou discoides
  • Músculo-esquelético: artralgias e artrite
  • Constitucionais: febre e fadiga
  • Serosite: pode ocorrer

Rim e sistema nervoso central são incomuns. Portanto, quando surgem, é prudente pensar primeiro em LES verdadeiro desmascarado ou outra etiologia.


4. Padrão sorológico: o que realmente ajuda?

Na prática clínica, alguns achados ajudam mais do que outros:

  • ANA: muito comum
  • Anti-dsDNA: comum, especialmente no ATIL
  • Anti-histona: clássico do lúpus induzido por drogas “antigas”, mas menos dominante no ATIL
  • Complemento baixo, anti-Sm, citopenias persistentes, nefrite franca → puxam mais para LES idiopático

Assim, a sorologia deve sempre ser interpretada em conjunto com o fenótipo clínico e a temporalidade.


5. Quando suspeitar: gatilhos práticos do consultório

Suspeite sempre que, após iniciar um biológico (especialmente anti-TNF), o paciente desenvolve:

  • Rash novo associado à fotoexposição
  • Artralgias ou artrite fora do padrão basal
  • Serosite sem explicação
  • Febre ou fadiga com autoanticorpos novos

Desde que, obviamente, infecção e outras reações medicamentosas tenham sido descartadas.


6. Diagnóstico do lúpus induzido por imunobiológicos: como fechar de forma pragmática

Não há critério universal. Contudo, a lógica mais aceita — e que utilizo no consultório — envolve:

  • Relação temporal plausível
  • Pelo menos uma manifestação clínica compatível
  • Autoanticorpos positivos
  • Melhora após retirada do agente

Revisões recentes reforçam esse modelo baseado em temporalidade + fenótipo + reversibilidade.


7. Conduta: o que fazer quando acontece?

Passo 1 — Suspender o biológico suspeito

É a medida central e, na maioria dos casos, suficiente para melhora clínica.

Passo 2 — Tratar conforme gravidade

  • Leve: AINE, tópicos, curto curso de corticoide
  • Moderado: prednisona por curto período ± hidroxicloroquina
  • Grave: tratar como LES com órgão-alvo e reavaliar diagnóstico

Passo 3 — Decidir o próximo tratamento

Em geral, evito reintroduzir o mesmo anti-TNF. Sempre que possível, prefiro trocar de classe, decisão que deve ser individualizada.


8. Diagnósticos diferenciais que não podem ser esquecidos

  • Infecções (inclusive virais)
  • Reações cutâneas medicamentosas não lúpicas
  • Vasculite induzida por anti-TNF
  • LES idiopático desmascarado

9. E os biológicos usados no tratamento do lúpus?

Belimumabe e anifrolumabe não são causas típicas de lúpus induzido. Pelo contrário, fazem parte do arsenal terapêutico do LES. Guidelines recentes do EULAR e ACR reforçam seu uso como poupadores de corticoide e baseados em órgão-alvo.


Checklist rápido

  • Linha do tempo clara
  • Exame físico dirigido
  • ANA, anti-dsDNA, complemento, hemograma, EAS
  • Suspender agente suspeito
  • Tratar conforme gravidade
  • Planejar troca de mecanismo

Em suma, lúpus induzido por imunobiológicos é raro, mas precisa ser reconhecido precocemente. A experiência clínica, aliada ao entendimento dos padrões mais comuns, evita erros diagnósticos, tratamentos desnecessários e, sobretudo, protege o paciente.


Nos vemos em breve com mais conteúdos práticos do consultório. Acompanhe também meu Facebook, meu Instagram ou fale comigo pelo WhatsApp.

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